
Texto: Vitor Ilis
Uma rotina de ensaios e aulas de ballet substituída pelo isolamento em um quarto de hospital. Há quase um ano, a vida da jovem Isis Rosa Lima, de 25 anos, entrou em compasso de espera por conta de uma série de complicações médicas na Santa Casa de Campo Grande. Atualmente, a paciente soma aproximadamente 40 dias ininterruptos em um leito à espera de uma cirurgia de correção de fístula liquórica pelo nariz. A angústia da mãe, que acompanha a filha sem previsão de alta ou assistência diária, ilustra a vulnerabilidade de diversas famílias e motivou uma recente força-tarefa da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul na unidade de saúde.
A saga da família e da mãe, Abigail Alves Rosa, revela falhas de comunicação com a equipe do hospital e uma longa peregrinação por atendimento especializado. Em abril de 2025, após a primeira internação por meningite e posterior alta, a jovem começou a apresentar um forte vazamento de líquido pelo nariz. A orientação recebida nos canais telefônicos do hospital limitou-se à busca por unidades de pronto atendimento. A confirmação de que se tratava de uma fístula liquórica espontânea só ocorreu após a insistência da família e o custeio de consultas e exames na rede particular de saúde.

Sem condições de trabalhar, a professora de ballet enfrentou a recusa do INSS para acesso ao auxílio-doença, perdeu contratos de trabalho e a própria formatura. De volta à Santa Casa para tratar a fístula, o protocolo médico incluiu a implantação de uma válvula na cabeça, que precisou de remoção dias depois por suspeita de contaminação após um novo diagnóstico de meningite. A mãe relata dias de exaustão física e emocional com os repetidos acessos venosos na filha e até a descoberta, em um pronto-socorro de bairro, de um fragmento plástico deixado nas costas da jovem após um dos procedimentos hospitalares.
“Minha filha precisa passar por uma cirurgia de fechamento de fístula liquórica espontânea. Até o momento nada definido e aguardamos no leito hospitalar. Tivemos poucas visitas médicas no leito; o doutor nem olhou para a minha filha, somente falou comigo na porta do quarto porque eu o questionei. A Isis perdeu os contratos de trabalho, sua formatura e colação de grau”, relatou Abigail Alves Rosa.
Hoje, mesmo com o alerta de urgência cirúrgica atestado por médicos de fora e após tentativas de transferência para outras unidades da capital, a paciente permanece no leito da Santa Casa à espera de um desfecho. Segundo a mãe, a presença do cirurgião responsável pelas avaliações e definições do caso é rara e o diálogo sequer acontece no leito.

A Defensoria Pública nos corredores
Diante do expressivo aumento de relatos de desamparo nos primeiros meses de 2026, a Defensoria Pública estruturou uma ação direta. Nos dias 11 e 12 de março, a instituição organizou um mutirão de atendimento presencial para acessar e ouvir quem não tem condições físicas de ir até os postos da Defensoria.

A iniciativa uniu esforços do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS) e do Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh). Uma equipe de oito profissionais, entre defensoras públicas, assistentes sociais e assessoras, percorreu as alas do hospital para colher relatos por amostragem. O contato ocorreu nos horários de visita para assegurar a proteção sanitária e evitar interferências na rotina médica.
Para garantir a abrangência do suporte, a equipe realizou os atendimentos aos pacientes internados nas especialidades de Neurologia, Cardiologia, Cirurgia Geral, Cirurgia Plástica e Queimados, Cirurgia Vascular, Nefrologia, Ortopedia, Trauma e Oncologia.

A coordenadora do NAS, defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, detalhou o cenário de incertezas registrado pela equipe.
“A Defensoria Pública tem observado nesses últimos meses, principalmente nos últimos dois meses, um número muito grande de solicitações de atendimento de pacientes que estão na Santa Casa, que relatam dificuldades como atendimento médico, demora em procedimentos, transferências e dificuldade de acesso a informações médicas. Nós oficiamos a Santa Casa e informamos que iríamos lá fazer o atendimento aos pacientes. Não foi uma inspeção hospitalar, foi um atendimento de pacientes para fazer observação de tudo que estava acontecendo ali no hospital”, explicou a coordenadora.

A falta de clareza sobre diagnósticos e prognósticos foi um dos pontos de maior atenção durante as entrevistas. A coordenadora do Nudedh, defensora pública Thaisa Raquel Medeiros de Albuquerque Defante, ressaltou o impacto dessa desinformação na vida dos assistidos.
“Foi muito importante realizar esse atendimento aos assistidos da Defensoria Pública que estão em tratamento na Santa Casa, e foi possível observar de uma maneira geral que a maioria não tem uma ciência exatamente do seu próprio quadro de saúde, então essa é uma questão que chamou a atenção, e nós vamos acompanhando os casos dos assistidos que estão lá, alguns já atendidos e outros que ainda precisam de atendimento, nós vamos acompanhar”, pontuou a defensora.
Encaminhamentos e esperança de resolução
Ainda na tarde de quinta-feira (12), após a conclusão das visitas, as equipes dos núcleos realizaram uma reunião estratégica para analisar os casos e dar o devido seguimento aos atendimentos. O objetivo é ajuizar ações judiciais urgentes para os quadros de maior gravidade e emitir recomendações administrativas à direção da Santa Casa, para cobrar a melhoria no fluxo de informações e na celeridade dos procedimentos médicos.

Para mães como Abigail, a intervenção da Defensoria Pública representa, acima de tudo, a esperança de um desfecho definitivo. A expectativa agora é que a atuação conjunta dos núcleos garanta à jovem Isis o direito à cirurgia necessária para curar a fístula e, assim, permita que ela retome os planos, a formatura e as aulas de ballet que o isolamento no hospital interrompeu.
Assistidas e defensoras durante realização de atendimento para avaliação do caso. (Foto: Vitor Ilis)

